Monday, May 3, 2010

18:30 - Regresso ao internamento


Dirijo-me ao quarto, organizo as roupas no roupeiro. Vou à casinha e visto o pijama de cetim rosa claro que encontrei lá em casa. Já estou mais enquadrada no cenário.
Chamam-nos para jantar. Chego ao refeitório, sala pequena com uma mesa não muito grande que permite um ambiente familiar. Todos de pijama, alguns de pijama e robe. O meu tabuleiro: uma sopa de legumes que estava boa. Prato principal: strogonoff de peru com arroz. Não tenho apetite, a ansiedade fez com que o meu estômago não deixasse entrar mais nada. Trinco uma tira do peru, como uma rodela de tomate e fico com a banana para comer.
Cantamos os parabéns ao aniversariante que tinha entrado nesse dia também.
Ainda com o meu acompanhante, chega a minha primeira visita.
Vou lavar os dentes. Deito-me no espaço que me pertence, a cama 22. A visita abandona a sala. Fico a ler . A televisão do quarto está altíssima. Estou cheia de sono, quero dormir para não pensar. Finalmente a enfermeira entra no quarto e distribui os comprimidos. Dá –me um mini saquinho com uma pílula dentro “ é para ter sonhos cor de rosa”. Tomo-a e assim espero que os meus sonhos sejam. Apago a luz.


Antes de dormir a Isabel tranquiliza-me, diz que é uma coisa simples, que a ela não lhe custou muito. Durante a noite percebi que a pílula não era assim tão mágica. Os sonhos não foram maus, mas muitas vezes interrompidos. A vizinha do lado gemeu durante toda a noite e fez muitos outros sons produzidos seu corpo. Não tive uma noite tranquila. Ás Seis da manhã já estavam a entrar no quarto, ainda bem que me ignoraram.
Foram ter com a Dona Júlia, acordaram-na e disseram-lhe que era a sua vez. Abri um olho e observei, virei-me para o outro lado.
7:00- Faltou a luz. Ficam os geradores e as luzes de emergência.
8:00 - “ Rita toca a acordar, banho, acabou a ronha”
Vou para o duche, casinha ás escuras. Desinfecto-me com o gel que está lá. Entretanto oiço pelos corredores, “ e a Rita, onde anda a Rita?” , grito da casa de banho “ estou aqui, estou no banho!!”, “ Rita, vamos lá a despachar, chegou a tua hora, não te atrases”—naquele instante ainda me ri , pensei ,como é incrível até para a cirurgia eu estar em cima da hora...

Episódio 1:

Já de pijama azul, sento-me na cama. Andam á minha procura. Rita, a Rita? Onde anda a Rita? – Estou aqui!! Lembrei-me que me tinham dito na véspera, que de manhã me iam dar um outro comprimido daqueles que ajudam a sonhar. Estava a ficar esquecido. Pergunto, antes que seja tarde. “ Senhora enfermeira, não me vão dar um comprimido daqueles? É que estou ansiosa..”
Chega um auxiliar com a minha cama de rodinhas e diz “ Rita, chegou o teu transporte”.
Deito-me no meu transporte, sou guiada por um auxiliar e acompanhada pela enfermeira Rita. Todos me tratam por tu, como a uma menina pequenina, acho se deve a como me estou a sentir. No caminho, pelos corredores, vão falando comigo, em tom de brincadeira” fica descansada estás em muito boas mão” dizia ela, “ eu não ficava assim tão tranquilo, nem sabes aonde é que te vieste meter Rita” dizia ele, “ o comprimido ainda não fez efeito” dizia eu.. Entregaram-me ao Bloco, o auxiliar pega na minha ficha, arregala os olhos, olha para mim, volta a olhar para a ficha, olha para mim “ Rita tens 32 anos??*?)? agora já não sei como hei-de tratar-te” , afirmei com a cabeça ,ele não queria acreditar, “pensava que tinhas no máximo 23” “óptimo, por mim tudo bem”.
Bom, vais deslizar deste transporte para aquele tabuleiro.
Estás entregue. Depois venho-te buscar, até já.

Episódio 2:

Transportam-me para outra sala. Esta muito bem equipada, moderna, parece que estou na entrada para a nave. O enfermeiro aproxima-se, apresenta-se e explica-me cada passo e o que vai fazer comigo durante o processo. Entretanto cola-me umas coisas brancas pelo corpo. Entra a anestesista, pergunta como me sinto, respondo que ainda um pouco ansiosa. Ela recomenda uma dose qualquer pela veia para me tranquilizar mais rápido e profundamente.
Ok. Tudo preparado, vamos Rita, injectam-me a anestesia e “Bons sonhos”.

Episódio 3:

Estou deitada, inconsciente, começo a cair em mim ao som de varias vozes, “Rita, Rita, acorda, acorda, Rita, estás a ouvir-nos? Acorda, respira, acorda Rita!”
Não sei o que fazer, de olhos fechados e naquele turbilhão, sinto que não consigo respirar, de olhos fechados, pálpebras tão pesadas e sem força para as abrir, faço um esforço incrível para respirar. Quero comunicar, que tenho a garganta arranhada, que está seca e que não consigo respirar, falta-me o ar. Nestas tentativas frustradas tento levantar o braço, que por sua vez está pesado, sem força, e com fios e tubos em cima. Faço um esforço tremendo para respirar , não consigo respirar normalmente, vejo-me aflita, “Rita, respira fundo, Rita, diz o que se passa, respira”, continuo num esforço, mas sinto uma grande dificuldade , o ar não passa, acelera a respiração, e sinto a minha maca a deslizar para trás, “Rita está com dificuldade respiratória, volta para o bloco, rápido, bloco, principio de não sei o que, ou principio de bla bla bla,..liga, luzes, liga maquina” . A minha consciência dizia “what the fuck!!!?? I need some air!!”, holofotes chegam os médicos , acalmam, e dizem” não, não, é ansiedade”..acalmaram-me e dificilmente fui respirando..

Episódio 4:

Chego à sala do recobro. Passam-me da maca para uma cama, insistem para eu controlar a respiração e deixar de fazer aquele barulho tremendo na inspiração. Quero comunicar, mas não tenho voz, não tenho forças. Faço um gemido e cara feia, na mudança de cama. Sinto toda eu a tremer, a gelar, um tremer descontrolado, e num gemido baixinho”tenho frioooo..” . Taparam-me, aconchegaram-me, e ligaram o cobertor eléctrico que era maravilhoso. “ pressão arterial, soro, 3mg de morfina, antibiótico, cobertor a aquecer,...”
A sala era redonda, no centro estava a base dos enfermeiros, com computadores e telefones, eles falavam alto, bem dispostos e muito dinâmicos. As camas estavam todas a contornar o circulo (interior) da sala, como se fossem os raios e o núcleo era a base dos enfermeiros. Conseguia abrir os olhos por alguns instantes, com uma moca gigante conseguia observar. Os telefones não paravam de tocar, num estado entre o adormecido e o acordado vejo o enfermeiro a atender o telefone e a olhar para mim “sim a Rita, já saiu, correu bem, queixa-se que tem a cabeça dormente e está com tonturas, mas está aqui à minha frente”...”Rita, era o teu irmão para saber de ti”. Adormeço, sonho e acordo, adormeço, sonho e acordo, pensava, não me quero mexer, agora estou confortável e muito quentinha, acho que estou quase a coser. A enfermeira ia ter comigo de tempos a tempos, eles falavam alto, e todos os operados dormitavam, acho que ninguém os ouvia tal eram as pedradas. “Mais uma chamada, “Gonçalo, a tua mãe está farta de ligar, não para de chorar e está muito preocupada contigo, estas bem Gonçalo?”. Vi o Gonçalo a entrar, mal se mexia, queria-lhe dizer olá, mas não fazia sentido, nem conseguia. “Está aqui um telefonema, é de Macau, é a mãe da Rita que está em Macau, era para saber de ti Rita”. Adormeci novamente. Até que a enfermeira vai ter comigo, “então Rita como te sentes, epá vou desligar isto, está a ferver, daqui a nada estás a coser”. Acho que sorri a assentir, mas deparei que não tinha voz, era uma voz tão fraquinha, tão baixinha.

Passadas algumas horas chegou a minha vez de seguir para o quarto, levaram-nos ao mesmo tempo, a mim e ao Gonçalo. Iam falando connosco pelos corredores, mas nós nem respondíamos. Sinto que estou com os olhos arregalados e a querer observar tudo. A enfermeira olha para mim, “A Rita está com um ar desconfiado, deves estar a pensar: agora é que me tramaram, fui me meter com estes tipos e deixaram-me neste estado”....ora nem mais...



Episódio 5 :

Entro deitada na marquesa e tenho as minhas vizinhas cada uma no seu lugar, a olharem para mim, a darem-me as boas vindas. Havia uma nova, na cama do lado, que tinha entrado antes mas esteve ausente no dia que entrei. Então ela apresentou-se. Não conseguia focar a cara dela. Deram-me mais morfina e dormi, dormitei, sonhei tanto. Estava proibida de comer e beber. Cada vez que acordava lembrava-me do que tinha sonhado, cada vez era um prato diferente do anterior. “humm açorda de camarão”...” apetecia-me arroz de polvo”...”arroz de peixe”..”caracóis e uma imperial”, “arroz de cabidela”, “azeitonas”, “ai ai queria uma sapateira, o recheio”, “lagosta que bom”, “canjinha”...mais uns cigarros, acho que os sonhos eram sempre a comer grandes petiscos e a fumar grandes cigarradas...vá-se lá entender este organismo. Enquanto eu estava cheia de desejos, a vizinhança andava toda agoniada, enjoada, e a vomitar. Podiam comer e andava tudo a jejuar.

Episódio 6:

As visitas começaram a entrar. Faziam-me perguntas. Falavam comigo. Não me lembro muito bem. A morfina, a anestesia, e tantas outras drogas mantinham-me naquele estado drunfado. Mas queixei-me de ter ouvido muitos barulhos durante a noite. Então, foram arranjar-me uns tampões para os ouvidos


Episódio 7:

……dormir….moca…..dormir…..palavras soltas….medicação ….dormir…moca….


Episódio 8 :

Olhava à volta e não percebia como aquela gente estava toda com tanta energia. Chegavam a ser irrequietas. Sentavam. Levantavam. Deitavam. Sentavam. Caminhavam. Sentavam. Chamavam enfermeira. Deitavam. Eu não me mexia. Dormia, dormia, dizia, sim, não , talvez, tenho sono.


Episódio 9:

“A Rita dorme que é uma delicia, dorme de dia, dorme de noite” . “ É , se não posso fazer muitos mais, nem comer , nem beber, a dormir o tempo passa melhor”
Chega a enfermeira pela manhã, desde as 6am que ía ao quarto, às 9am “Granda moca heim Rita”, sorri, “É verdade, mais medicamentos?”.
11am chega o enfermeiro de serviço “ Rita vamos ter que mexer, que tal levantar?”
“hum, não me parece, não me sinto em condições, quero dormir, mais daqui a pouco”. Esfomeada, olho para a vizinha com um pacote de bolachas de água e sal em cima da mesinha “Ana Maria, tenho fome, disseram -me que já podia comer hoje” “queres uma bolacha?” “ah se quero, obrigada”. A bolacha não me caiu bem, fiquei agoniada.

Episódio 10:

Cada vez que abria os olhos e olhava para a janela, diga-se que o quarto ficava num R/C, via a Nespereira e sempre alguém , nunca o mesmo, a roubar nêsperas. Os vidros eram fumados, de fora viam-se espelhados, as pessoas passavam, olhavam para a Nespereira, paravam, olhavam para todos os lados e rapidamente enchiam as mãos de nêsperas e lá seguiam felizes. De cada novo olhar para a Nespereira, via-a mais despida , com menos frutos.

Episódio 11:

Chegou o médico à sala. Cada Uma de nós, as Pacientes, aguardava a vistoria. “Hum, tem dores? Deixe lá ver, ainda não vai embora, próxima.. hum ...deixe ver, gostava de ir para casa amanhã? Vamos ver ...Rita, como te sentes? Está óptimo, gostavas de ir embora? bom, vais fazer o Rx e talvez vás mais cedo do que esperavas”
YUPIIIIIIIIII

Episódio 12:

Segunda feira de manhã vão –nos chamar, as “ladys” todas do departamento para irmos fazer o Rx. Uma a uma, fomo-nos juntando no corredor. Umas com atrelado, dos drenos, outras já sem eles. Todas despenteadas ou pouco penteadas, brancas, com ar de drogadas, papos nos olhos, de pijama, chinelos e roupões, seguimos em fila indiana pelos corredores do hospital. Parecia uma cena britishcom . Chegámos á sala de espera do Rx, sentadinhas umas ao lado das outras nos bancos do corredor, misturadas com os que andavam à civil. Á partida é uma cena que não tem piada nenhuma, eu fartei-me de rir com o cenário. O meu robe, era emprestado, encontrei-o aqui nesta casa á ultima da hora antes de ir para o internamento. Robe de homem, ficava enorme, de seda, castanho ás bolinhas brancas. Por baixo um pijama, também emprestado que encontrei por aqui, cor de rosa de seda, forrado a flanela, isto num dos dias mais quentes do ano.

Episodio 13:

Rita ,podes te vestir, vai para casa!
Yeahhh