
Pedimos à Arte para reter o que é fugitivo, iluminar o que é incompreensível, dar corpo ao incomensurável, imortalizar as coisas que não duram.
John Ruskin
Uma ilha à escala de uma tela
Se há viagens que se transformam no ponto de partida para um profundo encontro com a arte, também é verdade que a arte abre caminhos para muitas peregrinações.
Desde o primeiro olhar que estas telas de Rita Portugal nos revelam a autora como uma viajante privilegiada: nas suas obras, diários de viagens, as matérias raspadas, as cores deslavadas pelo desgaste do tempo, falam-nos do encanto de um lugar onde a vida deixou marcas, onde cada muro, cada janela, cada porta, cada recanto é uma tela onde o tempo eterniza as suas memórias. Assim Rita recolhe e reajusta os efeitos do encantamento que sobre ela exercem os seres e as paisagens, as paredes de sombra onde o quotidiano grava a sua escrita.
Uma justaposição de quadrados atravessados por linhas sinuosas, ou efeitos em volume sobre placas de cor que só ocasionalmente se estruturam como um jogo abstracto. A matéria e os efeitos cromáticos, a desagregação das formas para reconstruir a revelação ao acaso das ruelas, das pracetas veladas de pó, tisnadas de sol, descoradas pelas chuvas, invadidas por musgos e ervas, possuídas por todos os rigores das estações.
Que sente esta jovem artista face ao universo que recria nas suas telas? Que mitos reproduzem as suas cores, usadas, raspadas, estaladas, cinzas e ocres, nesgas de tecidos, colagens inusitadas, papéis abandonados, telhados remendados de zinco, terras e trilhos? Que histórias conta, que luz estival ou invernosa ilumina as suas visões? Angústia de quem vive uma errância permanente, ou euforia de resgatar ao esquecimento o que é perecível?
Construção de um universo pessoal onde o silêncio é usado como meio expressivo, como essência de uma inspiração que parece provir da saudade de um certo lugar, ainda por descobrir, ao acaso de uma nova viagem.
E de novo a criatividade de Rita Portugal, artista plástica, e recicladora de imagens, partilhará as experiências do seu olhar de viajante em telas quadriculadas, como caixas onde agrupa e revela os seus tesouros efémeros.
15-9-2006
Fernanda Dias


1 comment:
20 valores para artista e parabéns à jornalista que teve sensibilidade para avaliar o seu trabalho...
Bjks
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