Friday, April 20, 2007

Com olhos que sentem...




Após uma estadia prolongada na Europa, encontrei-me de regresso à Ásia e a mim própria a relacionar hábitos, costumes, religiões e sistemas organizacionais, ecológicos e urbanos.

Senti-me mais uma vez parte integrante de culturas diversas, simultaneamente presente em todas elas, ao mesmo tempo que observador de mim e dos outros.

Tudo isto porque vivi uma meninice em Portugal e uma adolescência sentida numa Ásia, ainda então a despertar.

Sinto-me assim, como observadora privilegiada em relação a um meio que me sendo familiar me foi arredado pela força das circunstâncias, não me tendo conseguido desligar afectiva e racionalmente de tudo o que a Ásia me ensinou, me fez pensar, em suma me fez crescer.

Tenho como memória todas as vivências e diferenças culturais, aceito-as, integro-as e desfaço-me naturalmente sobre elas.

No momento que estamos a atravessar, momento em que nos parece que a organização das coisas obedece a uma lógica aleatória, num caos organizado, choco-me com o que pensava ser a eficiência do Ocidente. Contrasta para quem (re)descobre o Oriente, a relação pessoal, a disponibilidade oferecida, a dedicação, tudo frutos de um princípio de valores e de um sistema estabilizado na desordem, que implicam um movimento constante, a consciência física de um tempo, tudo isto em detrimento de uma ideia formada de que é necessário um qualquer funcionalismo para que nos seja garantida a sobrevivência.

É o que penso, aquilo sobre que me debruço e me irei debruçar, numa palavra, aquilo que me coloco perante mim própria, na relação artística a criar, para com os outros.

Por força da globalização todos nós pensamos que se um dia pensarmos igual estará dado um passo em busca da perfeição. Não quero aprofundar nem os sistemas sociais, nem o fenómeno da globalização mas quero salientar que toda uma série de valores culturais, diferenciados, valores físicos, valores meus, estarão sempre presentes na origem do trabalho que pretendo desenvolver e apresentar.

Rasgo o invólucro da minha memória e salta-me a evidência das diferenças, entre culturas Ocidental e Oriental, presentes na alimentação, nos espaços habitacionais e no todo urbano.

Questiono-me sobre a possível conservação do existente, na confecção do mesmo e na qualidade ainda presente, contra aquilo que o inexorável mercado irá ditar.

No Oriente, seja onde estiver, numa Tailândia, numa China, em Macau, a confecção dos alimentos, a sua apresentação entram em divergência total com a minha experiência de “fast food”, globalizado, ocidental, limpo, mas de fraca qualidade.


como sinto o problema urbano;

Para o artista é reconfortante admitir uma volumetria externa em que se desenha um grafismo equilibrado; mas as manchas das grades nas janelas, reforçadas nas construções gigantescas dão-me a ideia de uma liberdade condicionada e duma visão do habitante de dentro para fora, o que contrasta com o aparente equilíbrio da volumetria imaginada no atelier do arquitecto.

A grade é sempre a defesa do exterior, pelo que me questiono sobre a vivência dos que vivem em celas desejadas, mas que serão sempre uma porta fechada ao que pulsa lá fora.

A globalização, a urbanização que lhe está subjacente, levam a que o problema actual das Sociedades Asiáticas seja a integração de mão de obra campesina em busca de melhores condições de vida nas cidades. Fenómeno asiático e só vivido indirectamente em Macau, que com todas as suas áreas conquistadas ao mar, as suas necessidades de mão de obra, o seu urbanismo desordenado, a sua distanciação entre um ordenamento urbano integrado e a existência de duas cidades dentro da mesma cidade, a da Unesco e a outra, apenas reflectem em ponto pequeno todas as contradições que a Ásia actualmente vive.

Fui registando o aparente equilíbrio das construções geométricas, aparente equilíbrio também presente na apresentação dos alimentos, tudo vibrando pelo ritmo que lhes é dado pela cor. Cor, que vibra, vibração que produz som que dá energia, que nos alimenta e nos rege a vida.


Compreende-se pois que nos trabalhos que venho e virei a desenvolver, a simbiose nunca perfeita, mas sempre tentada, entre a apresentação do alimento, que é elo de ligação com os outros e a forma de viver na Ásia, que por força dos sucessivos gradeamentos mais não representa do que a negação do exterior.

1 comment:

Dv said...

Muito interessante.

As grades como recusa a aceitar o exterior e os alimentos de cor vibrante que representam o prazer da comunhão que são para os asiáticos as refeições.

A Asia cresce e começa a ter o perigo de ganhar gorduras, gorduras essas que vêm nos fast-foods, nos Mercedes, nos Rolex, na Tv e no consumismo feroz de alguém que sempre viu mas nunca teve ao alcance.

Espero que a sua riqueza espiritual permita que não cometam tantos erros passados ou gerem tensões novas para o futuro.