Sunday, September 23, 2007

ILHA DE MOÇAMBIQUE


Os versos que Jorge Sena escreveu lembrando a passagem de Camões por este breve chão onde teve início Moçambique:

"[...] Tudo passou aqui - Almeidas e Gonzagas,
Bocages e Alburquerques, desde o Gama.
Naqueles tempos se fazia o espanto
desta pequena aldeia citadina
de brancos, negros, indianos e cristãos,
e muçulmanos, brâmanes e ateus.
Europa e África, o Brasil e as Indias,
cruzou-se tudo aqui, neste calor tão branco
como do forte a cal no pátio, e tão cruzado
como a elegância das nervuras simples
da capela pequena do baluarte.
Jazem aqui em lápides perdidas
os nomes todos dessa gente que,
como hoje os negros, se chegava às rochas,
baixava as calças e largava ao mar
a malcheirosa escória de estar vivo.
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam.[...]"

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