
Tenho a sorte de nesta vida me ter cruzado e continuar a cruzar com muitas pessoas interessantes e fascinantes.
Por vezes, mesmo sem ter uma relação muito intima com algumas, elas fazem-me revelações de um passado profundo. Contam-me segredos que estão trancados a sete chaves num dos muitos quartos que o presente teima em (re)abrir.
Por vezes, não percebo porque me contam como desabafos fugazes, a mim e não a quem está ao lado. Como que se sentissem mais leves, deixando-me com um respeito profundo por tais passados, pelas suas vidas, pela minha vida, pelas nossas vidas.
Não é uma coisa recente esta das confissões, dos segredos mais íntimos, dos medos, das sombras do passado que atormentam o presente continuo. Mas desde que aqui cheguei, já me largaram uns quantos nas minhas mãos. São como 'presentes', são dados quando menos esperamos, surpreendem-nos sempre, e sentimos sempre uma vontade espontânea em dizer/dar algo em troca. Mesmo que não seja de imediato, porque fico sem jeito, deixam-me tonta, sem reação.
A vida tem mesmo muito que se lhe diga, tem mesmo muito que nos ensine, muito que lhe respeitar, muito que lhe dedicar.
É esse encanto que está por trás de cada ser, esse fascínio que sinto pelos outros, o mundo que está dentro de cada um de nós. A complexidade de uma caminhada, cheia de tropeções, solavancos, precipícios, escaladas, deslizes, sobressaltos, armadilhas, surpresas, paisagens, encantamentos. E a fé, a capacidade, de continuar a sorrir. A esperança de que a vida nos trás coisas boas e mais do que tudo que viver é maravilhoso.
A mim, em todas as cambalhotas, acrobacias, subidas ao céu, quedas desastrosas, mergulhos profundos no meu percurso, só tenho a agradecer ao Universo por me ter cruzado com todos aqueles que me fazem crescer, me fazem despertar, chorar, lutar, aprender, descobrir um pouco mais de quem sou, do outro, da complexidade que está por trás de cada corpo, por trás do olhar, os lados mais obscuros, misteriosos, assim como luminosos e até ofuscantes, da revelação, da riqueza, da magia de cada essência.
Ando pelas ruas, observo o movimento, o sol que ilumina e afugenta o frio. A primavera está aproximar-se, cada vez tenho menos vontade de me enfiar no buraco do estúdio. Que em tempos foi um refugio do gelo e agora é um esconderijo da vida.
Hoje mandei um trambolhão nas escadas lá de casa. O meu joelho vai ficar negro uns tempos, para que não me esqueça de ter mais atenção.
Estou a adorar esta experiência. Adoro estar aqui.


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