
Fiquei fascinada com tamanha beleza, que apesar de parcialmente destruída, degradada, miserável e muito suja, me transmitiu a nítida percepção da magnitude do passado. Cada lugar é mágico, capaz de nos transportar a antepassados, a vivências, que não conheci mas cujos cenários a imaginação tratou de completar.
Pelo facto de praticamente não existirem janelas nem portas, há a possibilidade de entrar e admirar estes novos espaços, casas que foram ocupadas pelos que se refugiaram da guerra e que por lá permaneceram.
Sem saneamento básico, sem infra-estruturas, há como que uma fusão óbvia entre o homem e o meio, uma analogia entre duas naturezas distintas. O homem na conquista da natureza num passado, e num presente a força desta a tomar poder no seu lugar.
Casas que foram casas e hoje são ruínas. Ruínas com átrios de terra e ervas daninhas, escadarias que não levam a lugar nenhum. Paredes descascadas, pondo a nu os diferentes materiais de construção – pedras, madeiras, areias, tintas. As paredes que ainda restam, expostas, com tinta que ainda sobrevive e que se mistura com os fungos da humidade dando lugar ao musgo que se vai instalando. As cores que se alteram com o clima originando tons contrastantes, frios e quentes, provocando dégradés de ocres, verdes, ferrugem, óxidos… As raízes das árvores conquistam o terreno, rompem o chão de mosaicos característico da época e desenvolvem-se como cogumelos.
Casas em que o telhado de origem, já destruído, foi substituído por copa de árvores. Casas apalaçadas, que hoje são jardins interiores a brotarem por todos os orifícios. Janelas e portas, que perderam a sua função, restam-nos como elementos decorativos.

