

" Nota de intenções
Quando cheguei pela primeira vez ao Sudoeste Asiático (2005) o que senti não tem descrição. Mais do que a viagem, o jet lag e a admiração do que olhavam os meus olhos, eram todos os meus sentidos que estavam activos... O cheiro, o calor e a humidade, a floresta tropical e a selva de arranha-céus... o cheiro.
Macau foi estranheza e desconfiança... e por fim o achar na estranheza daquela forma de fealdade a beleza.
E aí encontrar um espaçamento português do outro lado do Mundo. Onde me senti em casa.
Surgiu assim uma vontade de perceber as pessoas que lá viviam, lá do outro lado, lá com a minha idade e com histórias e experiências que nós por cá julgávamos mas não conhecíamos. Isto originou a que voltasse a Macau por duas vezes depois dessa primeira viagem e que fizesse este filme.
Macau atinge-nos pelas suas ambivalências e os seus contrastes. Os seus (raros) silêncios e o seu movimento ensurdecedor. As suas cores néon e a placidez de um céu quase sempre encoberto por uma névoa muito típica.
Antes de querer contar uma história, queria tentar passar estes sentimentos, movimento sempre difícil quando se filma. Foi portanto na montagem do filme que encontrei espaço para a minha própria visão de Macau.
Quando um corpo passa, mais lento ou mais rápido que a imagem que o registou, isso é a verdade de como os meus olhos o viram. Neste filme as imagens, mais que o suporte da história (contada pelos protagonistas), são o espelho do “meu” Macau.
O que fiz dos contrastes que estão na minha visão sobre Macau (no som e na imagem), foi dar um tom sobre o que sinto ser a vida da maioria dos jovens portugueses de Macau. Uma constante ambivalência entre dois países e duas realidades, optando (sempre) por uma.
Há em Macau uma forma de estar, de sentir, de viver, de quem está um pouco descomprometido com a vida. Ou talvez de quem está bem com a vida.
Existem diferenças óbvias na vida dos portugueses em Macau e dos portugueses em Portugal (e mais concretamente em Lisboa). Neste documentário passa uma ideia, em grande parte correcta, que em Macau se vive uma vida mais desafogada, sem grande “stress” e com mais preenchimento do que aqui... (para quem fique tentado, é claro que há um reverso da medalha, mas têm de o ir descobrir, e quem sabe...)
Para mim, Macau é um território, mais um, que fica um pouco meu, em que (me) descubro sem nunca ficar a conhecer por inteiro. Foi o que tentei fazer neste filme, por isso creio que o próprio filme fica um pouco em aberto.
Uma coisa é verdade, de todos os protagonistas só um (já) voltou para Portugal. "
Por:
Realizador - Luís Campos Brás


1 comment:
"Existem diferenças óbvias na vida dos portugueses em Macau e dos portugueses em Portugal (e mais concretamente em Lisboa)."
Por este tipo de discurso já fui acusado pelos mestres antropologos de ser maniqueista.
Será possível ser-se objectivo?
Ou tudo não passa de narrativas que mais do que revelarem realidades revelam olhares??
Haja olhares, muitos que o mito são todas as versões do mito.`
shraddha o teu blog bloquei me todos os computadores.
Beijos
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