
Finalmente no outro dia lembrei-me que aquela caixa cinzenta (televisão) que estava sempre ao meu lado enquanto produzia se podia ligar, e que de lá saía som, imagens, informação e tanta estupidez.
O que é certo é que foi óptimo para parar esta cabecinha pensadora de atrofiar durante umas longas horas. É mesmo isso, a nossa televisão, a programação está feita mesmo para anestesiar o cérebro, ou seja para o atrofiar ainda mais. Para esquecermos que temos vida própria e passarmos a viver a vida dos outros. Desde as 10am (ai Jesus, quanto mais cedo pior) até terminar o dia 00:00h, cada programa, cada apresentador, cada convidado, cada tema pior que o outro. Bem, e as telenovelas umas a seguir às outras, que quem não está dentro nem percebe que já terminou uma e já está noutra. Isto porque neste andar a televisão só tem os quatro canais, o canal 2 sem dúvida que é o salvador. Imagino a quantidade de pessoas por este país fora, que se senta no sofá de manhã em frente ao televisor a papar aquela merda toda até ficar com a cabeça cheia de histórinhas da treta. Epa, se em apenas um dia eu assisti a tudo e fiquei num tal estado de miolos enfarinhados imagino quem faz deste cenário um ritual. Não compreendo mesmo como pode ser tudo tão mau e cansativo. Sim, porque no fim do dia realmente parecia estar leve por finalmente não me concentrar tanto nos meus problemas(que diga-se de momento não são nada de mais), medos, anseios, frustrações, ideias, carências, desejos, mas, fiquei com a cabeça cheia de lixo. Foi tanta a informação inútil recebida, tantas as conversas da xacha e os dramas individuais intensamente vividos no colectivo momentaneamente, sim, porque estar sentadinho do lado de cá e ver que os outros têm histórias do arco da velha, menos sorte, mais doenças e no entanto só desgraças faz com que os telespectadores na sua maioria, ou sejam solidários e comecem também numa espécie de competição a comparar as desgraças de cada um, ou deitem uma lágrima e pensam coitada(o) afinal os meus problemas não são assim tão maus. Mas no fim de contas feitas, este mundo está perdido.O que é certo é que essa compaixão e solidariedade são esquecidas nos momentos seguintes para dar lugar a mais um caso, a mais uma historia e outra e mais outra. É a mesma coisa de dizer, o pais está em crise, isto está muito mau, esta uma desgraça, esta a ficar muito violento, não temos condições, mas paralisados com tantas noticias desinteressantes e escandalosas (estas sem nunca irem avante com resoluções justas)ninguém se move, mas sim comove e cai no esquecimento.
E de repente Portugal transformou-se num país de desempregados, onde muitos se cansam e partem a aventura para outros destinos à procura de melhor sorte, onde alguns trabalham arduamente,onde muitos que ficam reclamam do excesso de imigração,referindo que o país está a ficar violento por culpa destes. Imigrantes estes que na sua maioria vêm para cá fazer trabalhos menores, aqueles que muitos portugueses não estão para se dar ao trabalho de o fazer.
E ainda, tornou-se também numa fábrica de lançar actores e manequins. Enquanto aqueles que não têm nada para fazer e por não terem dinheiro nem atitude para saírem do sofá, a televisão aposta nos mais jovens, nas caras bonitas, põe-nos cheios de estilo, aquele estilo forçado e plástico onde criam modas exageradas e pindéricas, onde alimentam o culto da fachada e do materialismo, conta mais o cabelo e as roupas fashion , o carro e o telemóvel topos de gama, elevando assim a ostentação e a estética , num país de endividados, deixando para trás a essência , a tradição a genuinidade,desfilam nas novelas, a apresentar programas de pobres em informação útil, em anúncios publicitários onde só há um ou outro que escapam, porque a sua maioria são de detergentes para a casa, ou claro telemóveis e afins...
Enquanto os nossos governantes não assumirem a questão da república como um assunto sério e de grande responsabilidade, e, dirigirem a nação cada vez mais perdida, cada vez mais desorientada, cada vez mais limitada de acções e horizontes, cada vez mais de shopping centers , que-é-bora-lá-endividarmo-nos-mais-um-pouco, penhorar o que ainda resta...
Bom, faço parte do grupo dos que criticam, mas que também muito pouco ou nada tenho feito nestes últimos anos pelo meu país. Faço parte daqueles que emigraram e sim, aí lá fora, como bom português não poupo em criticas, mas o saudosismo faz sempre realçar o que este país ainda tem de bom.


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