
Não há sítios perfeitos, somos nós que os vemos ou não intocáveis. A perfeição depende apenas daquilo que procuramos, do que nos satisfaz às nossas exigências, logo depende do ponto de vista de cada um e das carências momentâneas.
Para mim, neste momento, tendo já consciência que a perfeição se pode encontrar, não na sua totalidade mas como algo que me preenche por instantes na sua plenitude, ao invés de continuar numa busca desenfreada por algo perfeito, vou encontrando pequenas mestrias neste caminho percorrido.
Uma praia paradisíaca por exemplo, é um primor da natureza onde por instantes sinto que não há lugar mais sublime, mas por quanto tempo? Pois, tem tudo o que preciso para me encontrar, relaxar e encontrar serenidade, e sentir-me o ser mais completo por estar em contacto profundo com a natureza mas.....pois, ao fim de algum tempo posso sentir necessidade de dar a fuga de um lugar tão vazio de cultura, de acontecimentos, de novidade...tão distante do mundo , depende o que procuro, porque também posso optar em fazer a minha vida ai e então desligar-me de tudo o que achei necessário anteriormente.
Assim como Portugal, adoro aquele país, é o meu país! Portugal de paisagens incríveis, luz inigualável, uma costa de invejar, um sol , um céu um oceano de perder a voz ou pelo contrário de a ganhar num grito de liberdade e tamanha admiração. Um povo que tanto tem de bom como de mau, um país que de inverno canta o fado e de verão dança em rancho folclore, em que na chuva afoga-se no pranto molhado e que no sol já esqueceu quando seca todas as lágrimas. Portugal que de festas não para mas que em tudo o resto se mantém parado. Ok, pode ser perfeito penso que pode, mas para mim também o é por instantes, adoro, é um facto tem coisas excelentes como tem outras muito aquém.
Macau, tem tanto do que preciso e que me faz sentir bem como não tem.
Austrália, natureza bruta de cortar a respiração de chorar por tanto, onde se pode ter uma excelente qualidade de vida, há tempo e há qualidade mas realmente pode-se dizer " é só paisagem", e então ? e depois porque não? falta tudo o resto, e falta mesmo?! para uns sim , há outros que nem se lembram que existe mais mundo...Japão, país da organização onde tudo funciona ordenadamente, arquitectura minimal, sóbria, quase perfeita, gastronomia de crescer água na boca, terra dos prazeres do corpo e da alma, de paisagem incomensurável , de contrastes, de civilização ao extremo, e então? tudo aparentemente tão puro tão perfeito, há que cometer loucuras, dar o grito que corrompe com tudo o que é imposto e competitivo .Perfeito? pode ser acredito bem que sim...também por lá permanecia...
Moçambique, das praias mais incríveis que vi, miséria e falta de produção, corrupção à grande, sensação de impotência perante o tudo e o nada, era capaz também de aqui ficar, me adaptar àquele ritmo mole e distante de qualquer aproximação com a palavra civilização, fazer o quê? Ser útil para a nação, dar tudo e mais que o tudo para aqueles que têm o nada mais que nada. Ser feliz na entrega do que adquiri, ensinar, ajudar, e valorizar cada suspiro dado por ainda estar aqui, deixar de chorar por tudo o que perdi.
Índia, ai Índia, quando te pisei a primeira vez senti que a ti iria voltar, mas com uma missão. dos sitos onde me fascinou, me transformou mas também onde a angustia avultou. Nunca vi nada com tamanhos brutais contrastes, eu mesma passava do sorriso rasgado, ao olhos gordos de lágrimas, do olhar arregalado pelas cores e magia envolvente ao sobrolho carregado de indignidade da pobreza presente....aqui podia ser feliz, mas percebi que por aqui me poderia perder, ficar sem rumo e deixar-me levar por todas ou apenas uma magia, ou numa montanha em comunidade meditar, percebi que para voltar tinha que me fortalecer primeiro e saber bem o que por lá iria fazer e deixar.
Nepal, silêncio, introspecção, regresso às vidas passadas, pelo menos uma vivi ali, regresso à idade média, não percebi que pele é que vestia, mas tive a certeza que ali já pertenci....incríveis pessoas de olhar profundo e carregado intemporal viver..Voltar aqui, sim espero em breve, numa montanha, num mosteiro, no verde reencontro da simplicidade encontrada.
Outros e muitos mais lugares que conheci, densos de história , de povoado saber, de gente e povos, paisagens de manifesto sonhar , rios, montanhas e vales, lagos e mares, céus estrelados e luares alumiados...trilhos e caminhos, estradas, vias rápidas e via láctea, edifícios e construção, gestão, leis e governos, amizades e desonestidades, alegria, tristeza, riqueza, pobreza conforto e mordomia, fome, miséria, hipocrisia...
enfim, onde anda o paraíso perdido?
Ou será que é como disse Proust!?
" The true paradise are paradises we have lost."
O tesouro que procuro carrego-o comigo, por vezes perde umas pepitas em troca de raras especiarias, de pedras preciosas, magnificas magias. Tesouro que enriquece em busca de nova alquimia.
Conclusão, fui e posso ser feliz em qualquer um destes lugares, para sempre não sei, acredito que sim...porque então não me deixei ficar em qualquer um destes sítios em que me perdi de amores por todo o envolvimento? Porque não me deixei ficar e saborear, permanecer e perdurar? Em todos eles consegui imaginar o meu dia a dia... insatisfação? não, encaro mais esta questão como a terra que sendo tão grande e com tanto de perfeito como de imperfeito, que preciso de a explorar, explorar, explorar, na verdade sei que podia ser feliz em qualquer um dos lugares, desde que , lá está, tenha algo onde me possa realizar, de que modo? Há alguns possíveis...
Até me fixar, vou construindo a minha estrutura, recolhendo, comparando, valorizando, saboreando o que há de mais doce e amargo.
" Give me a firm place to stand, and i will move the earth."
Archimedes
Quanto mais se conhece e mais se sabe mais exigente se é e mais se procura, é um facto, mas também quanto mais se conhecer mais sereno será o nosso saber escolher. será??


4 comments:
Depois de se conhecer algo mais do que a nossa rua ficamos mais amplos, mais abertos, mais atentos, mais sedentos e ao dar azo ao mapa mundo derrepente queremos ver mais peças do puzzle.
Escolher onde viver? Viver no paraiso? Eu sinto que quero viver em todos esses sitios que me marcaram e ñ apenas num só... Mas talvez isso seja muito ambicioso, pq é sem dúvida bom ser nomada, só que por vezes a serenidade encontra-se no sedentarismo do local ou do momento.
Acho q fazes bem: aproveita serenamente o paraiso que vives e sentes, seja ele um momento, uma frase, uma criação, uma aprendizagem, uma relação, um encontro.
Eu pelo menos tento encontrar o paraiso na Essencia: na minha e das coisas e pessoas que me rodeiam.
Sim, acho que o paraiso está aí, na Essencia....
Apesar de apreciar a ideia de ser-se nomada, concordo contigo que a serenidade mais fácilmente se encontra na fixação de um lugar, mesmo que não seja permanente que dure o tempo de criar raizes..
Sim as raizes...
Quantas arvores deixamos plantadas nas viagens e sitios onde vamos vivendo?
Ou será a mesma que extende as suas raizes pelo globo por forma a receber a seiva de todo o planeta para assim alimentar a nossa Essencia?
Por vezes sinto-me perdido no meio do emaranhado de todas essas raizes e esqueço-me de que é o mesmo planeta que as alimenta.
Gostei dessa imagem,
de ser uma só árvore "que extende as suas raizes pelo globo por forma a receber a seiva de todo o planeta para assim alimentar a nossa Essencia",
também me perco muitas vezes nesse emaranhado, mas talvez porque o alimento não chega a todas as ramificações dessas raizes com a mesma força, com o mesmo calor, não conseguindo em algumas delas absorver a mesma água, nem a mesma luz.......franquejando e quebrando muitas delas, cruzando com outras cheias de vitalidade e frescura. Raizes novas que começam a ganhar terreno, raizes que penetram cada vez mais para a profundidade da terra, raizes velhas e secas que se perdem nessa imensidão...
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