
Ando sem vontade de escrever. Enquanto ando fora de casa não paro de pensar em bons textos, em situações que me apetece contar quando regressar ao computador. O que é certo é que tem sido sistemático este não saber o que dizer quando me sento em frente ao monitor.
Estou a gostar de São Paulo. Ainda conheço muito pouco, ou quase nada. Já vi algumas exposições de artes plásticas, já percebi que tenho dezenas mais para ver. Afinal são Paulo tem muitas zonas verdes e os espaços cuidados (fiz esta observação algumas vezes à qual obtive a resposta que isso é porque ainda so andei nas zonas nobres da cidade. Ao que parece , quando não é tão central o cenário muda de figura). É de facto uma cidade muito perigosa, que me tem condicionado um pouco. O sistema de transportes públicos é meio complicado. O metro é ridiculamente curto, os autocarros são infinitos, para além de ficarem horas no transito, quase que é preciso tirar um curso teórico/prático intensivo para entender a rede. Eu não entendo nada e claro, tenho medo de me aventurar, de me perder como tanto gosto nas cidades que estou a descobrir. Aqui, nem tento muito, tenho medo de levar um tiro. As pessoas são na sua maioria muito simpáticas, descontraídas e muito legais (tem de tudo na verdade, como todo e qualquer lugar).
Todas as manhãs vejo as noticias, e há sempre como noticia uma ou mais pessoas que foram assassinadas, ou na véspera, ou durante a noite ou na madrugada. A última que me impressionou, foi uma mulher que levou três tiros na cabeça, estava dentro do carro e tinha acabado de deixar os quatro filhos na escola, era psicóloga e o sucedido foi na vila madalena, bairro onde tínhamos estado umas horas antes. Foram raras as vezes em que circulei sozinha, mas essas eu senti-me muito pouco à vontade, por ter tanta historia trágica na cabeça. Afinal, depois tenho visto que não é bem assim. Todas, ou , a maioria dessas mortes foram acertos de contas ou umas encomendas. Aqui é comum pagar-se a alguém para a fazer desaparecer do mapa. Penso que esta semana tenho que me atirar mais para a rua. Estou cansada do meu condicionamento. Ainda ficam espantados quando conto algumas das minhas aventuras radicais pelo mundo fora, como a do night dive com os tubarões. Para mim isto custa-me muito mais. Olho para as pessoas e tentar perceber que tipo de ser é este ou aquele, se tem arma ou não, se estou na rua certa. Lembro-me da China por onde andava sozinha por qualquer rua de Shanghai e a qualquer hora, numa grande descontracção. Não me aflige perder-me, aflige-me ir parar ao sitio errado á hora errada. Enquanto ando acompanhada, confesso, que nem penso nisso, ando sempre descontraída. Agora também digo, que aqui deve-se circular o mais simples possível. o meu relógio abandonei-o desde o primeiro dia. Não tenho registos fotográficos, porque ou por preguiça ou por querer passar despercebida a câmara esta sempre guardada. No campo e na praia porque não quero andar carregada, quero mais sentir observar do que enquadrar tais paisagens em milésimos de segundos de imagem limitada. Na cidade, ando com uma bolsinha com quase nada, celular, algum dinheiro, cartões do banco ficam em casa, apenas o de bilhete único(para o ônibus) ou de estudante(que já não sou, mas ofereceram-me)para os eventuais, que são muitos descontos, entradas nas exposições, cinemas, ingressos para o futebol, concertos etc, ah as chaves de casa e a minha agenda que me tem acompanhado sempre, o meu bloquinho de notas com todas as dicas imprescindíveis para que me oriente minimamente, esta cabeça não fixa nomes nenhuns.
Cá não se usa cá, mas sim aqui. Os nomes dos bairros começam todos, ou quase todos por jardins ou vilas, a vila madalena, A vila Mariana, a vila Olímpia , o Jardim Mª Luiza (sim, escrito com 'z'), etc..os nomes mais difíceis de fixar são os indígenas como Ibirapuera.
Já não sei que língua falo, é uma espécie de atrasada na fala com dislexia. Só me lembro de no secundário ter tido uma professora que me rasurou o exame quase todo por dizer que o meu português era abrasileirado, que devia andar a consumir novelas a mais. Ela tinha razão. Isso e bandas desenhada sem qualidade, os livros aos quadradinhos do Cebolinha , da Mónica, dos Patos todos. Foi precisa alguma atenção para corrigir o meu português. O Abandono das ditas novelas e a troca de livros de retrete por outros de mais conteúdo foram uma ajuda preciosa.. Mas agora passados tantos anos estou a voltar atrás. É uma tendência minha, apanhar o sotaque. No Alentejo passo a falar alentejano, assim, como na Madeira, ou Porto. Aqui é mais uma necessidade de comunicação. Pois ninguém me entende. Matraquilhos é Totó no Rio e Pebolim em Sampa, autocarro é ônibus, comboio é treim, amnistia é anestia, muito giro não existe, estou a gostar ou a trabalhar não é compreensível, tenho mesmo aplicar os gerúndios trabalhando, morando, indo, comendo, pensado, todo o mundo e não bué pessoal.' Light' não me entendem tem de ser 'lightgi'. Não estou a perceber . "oi?" ah ok " não entendo, ou não entedgi" Bom dia deixou de ser para dar lugar ao Bom dgia, qual pequeno-almoço é café da manhã. Nada de pastel de bacalhau mas sim bolinho de bacalhau. Uffa confesso que ando muito tímida, e por vezes comunicar aqui fica mais complicado que na China. Anedotas dos portugueses são aos pontapés, o português é visto como o estúpido(mas isso não é só aqui..). Em São Paulo, sinto um misto, ando nas avenidas ou bairros, transportes ou bares, parece China, Tailândia, México e Portugal. Agora tirem a vossa conclusão. è tudo estranho, mas começo–me a sentir em casa, porque pelo menos culturalmente apesar dos brasileiros serem diferentes dos portugueses, são de todos os que mais parecenças têm com os português. Por isso me fazer tanta confusão, acho-os tão parecidos com os portugueses(alguns) e por vezes falo falo e acho que não entenderam nada, chegam a perguntar-me se sou americana, francesa ou alemã.Ontem numa festa de inauguração de espaços de arquitectura, onde eu não fazia ideia de que a maioria ía vestida como se fosse para uma gala, onde havia mais peruas que eu sei lá o quê , onde eu estava uma chunguita e todas olhavam por estar tão deslocada com a minha vestimenta, calma não foi assim tão grave, arquitectos e designer estavam tranquilos mas visitantes era mais uma passerelle. tive vontade de ficar num cantinho a observar tudo silenciosamente e rir-me um pouco de algumas pessoas no mundo. Mas não, aproveitei a boa companhia, papo gostoso e drinks delicia. Depois de longas conversas, falei da minha insegurança aqui ao qual me responderam " é vai com calma, tranquilo, vc tem muito boa energia ninguém te vai fazer mau não, mas num esquece que é das cidades mais perigosas do planeta".

Estava no Museu(MAM)de arte moderna, entrei, cheguei à recepção e perguntei se era preciso bilhete para entrar, -"oi?" - "preciso bilhete pra entrá?" -"Oi?" . "ticket?" – " como?" - hummm....preciso pagar?" porra, era ingresso!! Tento não ter, mas tenho ar de gringa, e de miúda. tenho deixado alguns bem chocados quando confesso a minha idade.
Os homens brasileiros, aparentemente também, me parecem bem mais respeitadores do que os portugueses. Pois eles olham bastante, mas nunca nenhum me tentou tocar no meio das multidões e não ouvi ainda daqueles piropos nojentos que tanto temos que fazer ouvidos moucos na Portugalândia. "putz, é legal pra caralho" atenção isto para nós seria conversa em calão, aqui não é, usar as seguintes expressões ou palavras, é muito banal , comum e usado por todos e qualquer um, geração, e ambiente . Música boa pra caralho, ou é foda, é uma puta cidade, putzz que transito...gentshi fina pra cacete;
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numas deambulações pela internet deparo:
Luxemburgo é a cidade mais segura do mundo e Bagdá a mais perigosa. Nova Délhi é a cidade mais perigosa do mundo para as crianças e uma das piores para as mulheresCaracas, a cidade mais violenta do mundoSão Paulo tem mais de 1% dos homicídios do mundo "São Paulo é uma cidade terrível, do ponto de vista da convivência humana", diz o sociólogo Fernando Afonso Salla, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP).
Salla nota que o aumento da violência levou à perda dos espaços públicos de convivência e à procura cada vez maior, principalmente nos últimos 20 anos, de estratégias individuais de segurança. "Cresceram muito nos últimos anos a blindagem de carros, grades nas casas. Tudo isso torna a convivência na cidade muito complicada", afirma.
Para uma diminuição efetiva da violência, o sociólogo aponta a necessidade de investimento pesado em programas sociais, para integrar à sociedade as camadas mais pobres, dos bairros periféricos, ao mesmo tempo em que defende uma reforma no sistema policial e penitenciário, para acabar com as fugas nas prisões, e judiciário. "É a dobradinha de sempre, investimento na diminuição da exclusão social e econômica de um lado e no aumento da eficiência da polícia do outro", afirma.


1 comment:
Ou citando Hans Mangnus Enzensberger in A Theory of Tourism : “ Despair is a familiar experience for tourists. Blindly, they grasp for the strongest means to dissipate boredom, well aware beforehand of the futility of their escape.”
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