Os últimos três livros que li, coincidência ou não, descreviam histórias e vidas reais. Os três de escritores brasileiros, que por coincidência ou não também, retratavam realidades bem tristes, pesadas, difíceis, dramáticas.
Mexeram profundamente no meu íntimo. Sentir como para muitos o valor da vida humana é zero. Perceber como o ser humano consegue ser tão fraco de valores, ser tão egoísta, tão "filho da puta" na luta pelo poder e na luta pela sobrevivência assim como, encontrar forças poderosíssimas e resistir ao quase impossível.
E, continuar sem compreender como alguns têm a sorte repetidas vezes a bater-lhes á porta e outros tropeçam no azar numa vez só, o suficiente para um fim.
Cito aqui os três para quem tiver curiosidade em conhecer determinadas personagens tão bem retratadas, em se perder em tão boas descrições mas, tão tristes verdades.

Abusado, o dono do morro Dona Marta, é um relato do tráfico nos morros cariocas, de como "nascem" os traficantes e do relacionamento entre eles e a comunidade. O livro é uma reportagem escrita em forma de romance.
Caco Barcellos escreveu uma biografia sua, a partir de dados fornecidos pelo próprio bandido, e narrada em primeira pessoa, do ponto de vista dele. A obra dá detalhes sobre a história da Favela Santa Marta e do tráfico local, bem como do surgimento e funcionamento de facções criminosas da cidade do Rio de Janeiro, tais como o Comando Vermelho (ao qual Marcinho VP era ligado), Amigos dos Amigos e Terceiro Comando.
Segundo o livro, Marcinho VP queria largar o tráfico e sair da favela por uns tempos, mas não o fez por medo de que traficantes inimigos tomassem o Santa Marta. Ganhou notoriedade no Brasil após "autorizar" as filmagens do clipe de Michael Jackson no Santa Marta, nos anos 90. Na época, repórteres conseguiram entrevistá-lo, com a condição de que não revelassem segredos do tráfico. Essa entrevista causou grande repercussão, sendo um dos motivos que o fizeram entrar para a lista dos traficantes mais procurados pela polícia fluminense.
Por demonstrar preocupações sociais no seu discurso, ao contrário da grande maioria dos outros "chefões" do tráfico carioca, Marcinho VP acabou por se aproximar de intelectuais que passaram a encontrá-lo na clandestinidade.

Estação Carandiru (1999) é um livro do médico oncologista, professor e escritor Dráuzio Varella (1943).
O autor conta a sua experiência como médico voluntário, a partir de 1989, na Casa de Detenção de São Paulo, onde realiza atendimento em saúde, especialmente na prevenção do HIV. Conta o que ouviu dos presos ou o que presenciou e termina com um relato do [Massacre do Carandiru massacre de (1992)], quando foram assassinados cento e onze presos no "Pavilhão 9". O autor regista que, segundo os presos, foram mais de "...250 mortos, contados os que saíram feridos e nunca retornaram".
Foi adaptado para o cinema com o filme Carandiru.

Feliz ano velho é um livro de Marcelo Rubens Paiva lançado em 1982.
Trata da experiência autobiográfica do autor, que relata o acidente que o deixou tetraplégico depois de um mergulho num lago, após bater acidentalmente com a cabeça numa pedra. Mostra a dificuldade que muitas pessoas sofrem com essa situação e a força de vontade que um homem tem de se inserir novamente na sociedade, enfrentando os seus problemas e medos.


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